Duas semanas peregrinando pelo caminho peregrino no interior de São Paulo e Minas Gerais.
Noite de domingo de um Maio seco chego a São Carlos para começar em plena segunda o Caminho da Fé. Decidi fazer a rota do nada, aproveitando que ia estar no interior de São Paulo com uma folga de duas semanas. Situação ideal para voltar para casa de bike dando uma passada pelo sul de Minas. Fora a lista de hotéis fornecido pelo site oficial, eu apenas baixei o arquivo GPS pelo site do OP. Juntei a isso meu kit de viagens e fui.
O primeiro hotel indicado parece um convento. Um longo corredor estreito e alto, com duas dezenas de quartos no mesmo estilo. Com a escuridão do adiantado da noite, tudo fica mais soturno. Pra completar a TV pega apenas um par de canais salpicados de chuvisco. Com essa combinação, a cama me pareceu a melhor opção.
Minha programação era moderada, cinquenta quilômetros por dia para aproveitar os lugares por onde ia passar e para dar tempo às pernas de se acostumarem com as montanhas. Com esse espírito comecei devagar o dia, e de tão devagar fiz a primeira besteira antes mesmo do primeiro giro no pedal. Ao zerar o GPS, apaguei até as trilhas salvas que tinha acabado de colocar. A opção foi confiar na organização e sinalização que diziam ser igual à de Santiago de Copostela. Desci até a igreja matriz e passei a procurar por setas amarelas. Achei uma num poste na rua lateral e ao seguir o sentido indicado, elas começaram a brotar à minha frente.
Ramal Oeste
Comecei por uma extensão do projeto inicial do Caminho, chamado Ramal Oeste, poderia se chamar Ramal do Álcool. Em mais da metade desse trecho que vai até Águas da Prata, onde todos os ramais se encontram, só vi cana de açúcar. No primeiro dia, a única paisagem que se diferenciou foi um santuário que apareceu 16 Km depois de sair de São Carlos. Como era dia útil, tudo vazio, mas, pelas instalações, dá pra supor que aos domingos a movimentação por ali é bem maior. Logo após esta igreja, a tentação do asfalto se apresentou oferecendo uma linha direta e mais curta para Descalvado. O caminho cruza várias vezes por rodovias vicinais e sempre nos leva para as de terra em busca de pedal mais tranquilo. Como efeito colateral temos um aumento considerável na distância. Por isso, sempre que cruzamos com o asfalto, a tentação de cortar caminho é grande.
Descalvado é uma típica cidade do interior paulistano, uma grande praça central e quase nada pra fazer para quem é turista e não conhece nada do local. Cheguei a tempo do almoço e, até teria luz do dia para continuar até Porto Ferreira, mas por prudência, resolvi pegar leve com as pernas. Os primeiros dois dias por entre morros para quem mora no litoral são os mais complicados. Além disso, eu queria pernoitar em Santa Rita do Passa Quatro, cidade que conheci em outros carnavais e gostaria de rever com mais tempo. Por isso deixei para o segundo dia um outro trecho de quarenta quilômetros.
Depois de um primeiro dia que só valeu pelo exercício físico, o visual a partir de Descalvado começa a melhorar, ainda muito canavial para atravessar, mas a serrinha na chegada a Santa Rita anima pelo visual. No meio do caminho, Porto Ferreira foi uma boa opção para almoçar, mas foi só. Antes de chegar à cidade, o asfalto volta a oferecer atalho, ainda mais porque é um retão em descida e com um belo acostamento. Para quem não morre de amores por passar entre canaviais, a tentação é dobrada.
Santa Rita é uma cidade interessante, tem mais gente nas ruas e o povo adora bater um papo. Ao parar no primeiro boteco que vi para tomar algo gelado e descobrir onde eram os hotéis na cidade, o pessoal já encostou para as perguntas de sempre, só que dessa vez em vez do famoso "vem da onde, vai pra onde" a frase da hora e que se repetiu inúmeras vezes foi "tá indo pra Aparecida?". Essa cidade bem que poderia ser o ponto de partida para paulistas vindos do sul ou oeste, foi onde o caminho começou a ficar divertido.
O projeto para o terceiro dia era avançar varias marquinhas no mapa e chegar a Vargem Grande do Sul, mas, como em caminho peregrino toda e qualquer decisão não leva em conta nossa vontade, andei só uma casa no tabuleiro. Parei em Tambaú. Acordei com as pernas sem muita vontade de pedalar, além de inchadas. A região não via chuvas há tempos e o ar estava muito seco. De manhã o clima era legal, mas durante a tarde tudo ficava mais difícil. Por isso tirei a tarde de folga em Tambaú. Cheguei a tempo de ainda tomar banho antes do almoço.
Completei o trecho no dia seguinte. Nesse pedaço até Vargem Grande não há o que fazer ou ver, é pedalar o tempo todo para sair do acostamento da estrada o quanto antes. Devido a uns problemas com irrigação que está atolando a estrada de terra por onde passa o caminho, o pessoal me indicou seguir pelo asfalto. Foi um dia monótono e tenso: como o nome da cidade anuncia, a estrada corta uma grande baixada com muito caminhão fazendo marolas de vento todo o tempo. O pessoal escolado no caminho, estica o trecho até a pousada da Dona Cidinha, cerca de 15 km após Vargem Grande, mas pra chegar lá há uma serra de arrancar lasca. E depois de aprender com os mineiros que “serra você vira sempre na fresca”, deixei pra conhecer famosa Cidinha no dia seguinte.
Vargem Grande é uma cidade grande e tão movimentada de carros quanto a rodovia. Passando a noite ali deu pra entender porque o pessoal prefere enfrentar o perrengue da serra no fim do dia para pernoitar na Dona Cidinha. A pousada fica na encosta de um morro de onde avistamos duas cidades ao longe. Cheguei cedo por lá e tive o azar de não a encontrar, apenas o filho que trazia dois leitões ensacados e amarrados no para-choque do trator. Mas deu pra ver que o lugar é especial. Como compensação, ao sair bem cedo de Vargem vi algo que ciclistas que passam pela estrada no meio da tarde não presenciam: um infinidade de maritacas ainda empoleiradas em duas árvores a beira da estrada. Foi um espetáculo que há tempos não via.
Depois da pousada a estrada continua bela e ainda com muitas subidas. O caminho foi escolhido como penitência pura, só pode. Do alto do morro vejo São João da Vista e sei que Águas da Prata está mais a esquerda e no mesmo nível, mas as setas me mandam pra esquerda num sobe e desce sem fim. Até chegar a São Roque da Fartura tem perrengue de monte. Paro ali para almoçar e fico sabendo que ainda tenho mais três quilômetros de subida antes de poder descer a serra para alcançar Águas da Prata. E ao sair da cidade, as setas indicam descer por uma estrada de terra para uma baixada antes de seguir serra acima. Nesse ponto, não tive dúvidas, escalei a serra pelo asfalto. Lá no topo encontrei o caminho vindo da esquerda que me faria atravessar o asfalto novamente para só descer a serra pela direita do asfalto. Fiquei feliz com minha decisão, pois até penitência tem limites. Depois foi encarar uma descida forte e com muito cuidado para alcançar a cidade sede do Caminho.
Águas da Prata é uma cidade simpática. Logo na chegada me deparei com o parque municipal com seus quiosques forrados de micos tentando roubar comida de turistas. Não tinha lugar melhor para fazer minha investigação inicial sobre o lugar. Acompanhado de um milho verde, descobri onde ficava o albergue oficial do caminho, onde jantar e, que fora de temporada, a maioria das pousadas fecha e os hotéis remanescentes com sua programação voltada para a terceira idade tem um preço salgado. O albergue oficial é a melhor opção para preço, encontrar outros peregrinos e bater papo no café da manhã com a hospedeira. Agora se seu sono for muito leve, melhor buscar uma pousada fora da avenida principal que é também a estrada, passa caminhão a noite inteira.
Caminho Original
De Águas da Prata a Aparecida é onde o Caminho já tem raízes e fica mais divertido
Acordei animado para sair de Águas da Prata. Afinal ia virar a esquina e começar efetivamente a rumar para Aparecida. Mas podia ser também porque estava prestes a pedalar em terras mineiras novamente, o que é sempre um prazer, mesmo com tantos morros a enfrentar. E já sabendo disso programei começar cedo o dia. Até que teria conseguido se o papo no café da manhã não estivesse tão bom.
O caminho para Andradas é até tranquilo e como no dia anterior cheguei descendo, o dia começa subindo com destino ao Pico do Gavião. No meio do caminho a Ponte de Pedra exigiu uma parada pra um lanchinho. Conforme vou avançando e chegando perto da divisa de estados a paisagem se transforma. Claro que a passagem é por uma pequena serra com um rio a ser atravessado. Nada demais, apenas um pouco mais de emoção.
Na chegada a Andradas, a emoção se transforma em tensão. Como só tinha subido no dia, o que faltava era descer. O vale por onde chegamos é tão lindo quanto perigoso. Ao mesmo tempo em que vejo a cidade, a estrada some aos meus pés de tão íngreme que é. E para piorar, colocaram muita brita para evitar lama para os carros. Como resultado, ela ficar muito instável para bikes. Resumindo o perigo, um ciclista deslocou o ombro no mesmo dia que passei por lá. Fiquei sabendo do fato no hotel onde a viagem terminou para ele.
Andradas ainda mantém seu jeito mineiro de cidade pequena apesar do tamanho e movimento de suas ruas. Já no registro no hotel o papo estica um pouco mais quando peço uma dica de onde comer, ao sair atrás do restaurante, cruzo a praça onde uma turma animada joga truco no meio da tarde. Minas é diferente.
Saindo dessa primeira cidade mineira o caminho é fácil, mas aos poucos vou percebendo que estou indo em direção a uma montanha e que ela tem a mesma altura da que passei na chegada. Como não fiquei fuçando relatos e dicas sobre o caminho, não sabia que estava aos pés da Serra dos Lima, a eleita por vários ciclistas com o caroço do caminho. Do nada aparece a minha frente um asfalto e setas indicando que essa era a minha subida. Penso com meus botões que sendo asfaltado até que fica mais fácil subir. No começo até que foi bem, mas depois de umas duas curvas a rampa vira daquelas lançadoras de foguetes balísticos, mesmo fazendo zig-zag fica pesada. Pedalei até achar um casal de agricultores e aproveitei o papo pra tomar fôlego de vez. O papo rolou por meia hora com direito a uma aula sobre café e agrotóxicos. Depois disso não consegui retomar na subida e empurrei por uns 500 metros até o fim do asfalto. Estava novamente no alto das montanhas e sabia que só iria descer pra valer para a próxima parada.
Depois da subida da serra, o caminho vira uma típica estrada de fazenda, com pedras soltas, erosões que aparecem do nada e pequenas subidas com suas irmãs, as descidas. Mas como toda estrada de fazenda, sempre tem alguns lugarejos no meio do caminho com botecos e povo pra prosear. Acho que era um domingo, pois encontrei uma turma batendo papo no primeiro bar que fica junto a uma pousada de peregrino. Aproveitei pra comer o resto de pizza da noite anterior com algo gelado. Nessa parada descobri que podia cortar a última subida no estilo penitência antes de chegar à cidade, bastava seguir a direita depois do povoado da Barra. Nesse momento até neguei sair do caminho para evitar uma subida, mas ao chegar na Barra, encontrei uma turma disputando um campeonato de bocha. Parei pra assistir e aí a tentação em deixar a penitência pra depois falou mais alto. Confirmei com mais um velhinho a possibilidade de contornar o morro e fui. Passei por São João do Mato Dentro e encontrei novamente as setas do caminho mais à frente antes de chegar, no fim da tarde, a Ouro Fino.
Acordei com a sensação de que estava enrolando pelo caminho. Por isso levantei com pique para fazer um dia mais esticado e dar uma adiantada nos passos do tabuleiro do meu mapa. Saí de Ouro Fino cedo, o céu pela primeira vez estava nublado e o clima mais fresco. Imprimi um ritmo bom até avistar numa descida um senhor de chapéu com sua magrela motorizada e uma cordinha na mão. Ele rodeava sua motinho parecendo procurar algo. Parei para ver se estava tudo bem e claro que não estava. O cabo da embreagem tinha quebrado e a bike tinha ficado engatada e com a roda travada. Ele estava a uns 300 metros do fim da subida e depois era só descida até a cidade. Bastava soltar pra empurrar morro acima que tudo estava resolvido. A cordinha era para tentar amarrar a alavanca da embreagem na posição certa. Quando vi o cabo quebrado, lamentei que dessa vez não tivesse nenhum reserva comigo. Sendo uma viagem pelo interior de SP, a gente dispensa muita coisa porque sabe que tem assistência nas cidades. Ele era um típico caipira, muito simples e meio sem dentes, só faltava o cigarro de palha. E claro estava meio perdido com a coisa. Para testar se ia soltar mesmo, segurei a alavanca e disse pra ele empurrar a bike. E não é que a alavanca ficou na posição de neutro. Nem precisou amarrar. O tiozinho só faltou dar pulos de alívio. Seu plano era soltar na banguela para fazer a bike engatar e acelerar fundo morro abaixo. Perdi uns quinze minutos nisso, mas ganhei o dia.
Ao passar por Inconfidentes, aproveitei que era cedo e parei para um cafezinho numa padaria. Já vi que ia atrasar tudo mesmo, então por que deixar passar mais uma chance de ver mais coisas? Depois foi o almoço em Borda da Mata. Mas este eu deveria ter trocado por um lanche mais leve pois pra deixar os limites do município a coisa é feia. Uma serra longa, daquelas que você não vê o fim e onde cada curva virada é um teste de paciência. Isso porque já era a tarde e a secura da semana pegava forte. A umidade relativa girou em torno de 40% por toda a semana. Depois de cruzar o limite da cidade para Tocos de Moji, foi ladeira abaixo por um bom tempo até a coisa enrugar de novo e virar tobogã. Chegando à cidade, placas de advertência sobre o perigo das descidas foram aparecendo. Eram descidas tensas no estilo Andradas, mas menores.
Tocos de Moji só veio a saber o que é turismo com a implantação do Caminho, hotel não existe até hoje, apenas uma hospedaria no estilo peregrino rústico e pousadas em edículas de moradores que estão mudando de vida com a nova atividade. Foi numa dessas que fiquei.
Mesmo com uma boa noite de sono, no dia seguinte me senti pesado. Depois de dois dias com serras fortes pelo caminho amanheci devagar novamente. Nem mesmo a rampa de 500 metros pra sair da cidade conseguiu esquentar pra valer. De Tocos a Estiva só há uma serra mais proeminente, daquelas que o pessoal coloca calçamento no topo das passagens dos morrinhos pra carro não deslizar. Mas negociei bem as passagens e a manhã rendeu bem. Cheguei a Estiva pouco antes do meio dia e mesmo assim a canseira já estava grande. Como já tinha quebrado vários dias da viagem, um a mais não ia fazer muita diferença, então aproveitei que a pousada por lá é das boas e tirei a tarde de folga. No fim do dia apelei pro açaí da praça para recompor as energias para o dia seguinte, pois precisaria cumprir o programado para chegar ao pé da serra de Luminosa em dois dias para subir a Mantiqueira pela manhã.
A primeira parte do plano era chegar a Paraisópolis partindo de Estiva e foi trabalho fácil. Consolação fica no meio do caminho e deu quase pra tomar um segundo café da manhã por lá com o ritmo que fiz. A segunda perna até Paraisópolis tem mais uma serrinha no meio e uma tentação pela esquerda. Uma estrada asfaltada com muito pouco trânsito é algo difícil de resistir para quem está há vários dias na estrada. Ainda mais porque os três primeiros quilômetros é por ela mesmo e sair pra terra novamente até dói. Na cidade, a pousada fica ao lado da igreja. Isso, aliado à mania de padre botar igrejas nos topos dos morros, vai te fazer subir mais uma rampa antes de poder descansar. Mesmo assim cheguei por lá a tempo de pegar o restaurante aberto para o almoço.
O próximo passo antes de enfrentar a travessia para Campos do Jordão era chegar o mais perto possível da serra para poder enfrentar a encrenca logo cedo. Para isso teria que pernoitar um pouco depois de Luminosa, um distrito que fica do outro lado do morro a frente de Paraisópolis, só pra variar. Mesmo subindo o pedal foi agradável, a estrada faz um zig-zag sobre a fronteira entre São Paulo e Minas. A parada para algo gelado é em São Paulo e no fim do dia voltamos a Minas. Depois de algumas horas nesse vai e vem desemboquei no alto de um morro com uma vista maravilhosa da cidade e do vale ao seu redor. E o melhor, era só descida até lá.
Mantiqueira
De Águas da Prata a Aparecida é onde o Caminho já tem raízes e fica mais divertido
Acordei animado para sair de Águas da Prata. Afinal ia virar a esquina e começar efetivamente a rumar para Aparecida. Mas podia ser também porque estava prestes a pedalar em terras mineiras novamente, o que é sempre um prazer, mesmo com tantos morros a enfrentar. E já sabendo disso programei começar cedo o dia. Até que teria conseguido se o papo no café da manhã não estivesse tão bom.
O caminho para Andradas é até tranquilo e como no dia anterior cheguei descendo, o dia começa subindo com destino ao Pico do Gavião. No meio do caminho a Ponte de Pedra exigiu uma parada pra um lanchinho. Conforme vou avançando e chegando perto da divisa de estados a paisagem se transforma. Claro que a passagem é por uma pequena serra com um rio a ser atravessado. Nada demais, apenas um pouco mais de emoção.
Na chegada a Andradas, a emoção se transforma em tensão. Como só tinha subido no dia, o que faltava era descer. O vale por onde chegamos é tão lindo quanto perigoso. Ao mesmo tempo em que vejo a cidade, a estrada some aos meus pés de tão íngreme que é. E para piorar, colocaram muita brita para evitar lama para os carros. Como resultado, ela ficar muito instável para bikes. Resumindo o perigo, um ciclista deslocou o ombro no mesmo dia que passei por lá. Fiquei sabendo do fato no hotel onde a viagem terminou para ele.
Andradas ainda mantém seu jeito mineiro de cidade pequena apesar do tamanho e movimento de suas ruas. Já no registro no hotel o papo estica um pouco mais quando peço uma dica de onde comer, ao sair atrás do restaurante, cruzo a praça onde uma turma animada joga truco no meio da tarde. Minas é diferente.
Saindo dessa primeira cidade mineira o caminho é fácil, mas aos poucos vou percebendo que estou indo em direção a uma montanha e que ela tem a mesma altura da que passei na chegada. Como não fiquei fuçando relatos e dicas sobre o caminho, não sabia que estava aos pés da Serra dos Lima, a eleita por vários ciclistas com o caroço do caminho. Do nada aparece a minha frente um asfalto e setas indicando que essa era a minha subida. Penso com meus botões que sendo asfaltado até que fica mais fácil subir. No começo até que foi bem, mas depois de umas duas curvas a rampa vira daquelas lançadoras de foguetes balísticos, mesmo fazendo zig-zag fica pesada. Pedalei até achar um casal de agricultores e aproveitei o papo pra tomar fôlego de vez. O papo rolou por meia hora com direito a uma aula sobre café e agrotóxicos. Depois disso não consegui retomar na subida e empurrei por uns 500 metros até o fim do asfalto. Estava novamente no alto das montanhas e sabia que só iria descer pra valer para a próxima parada.
Depois da subida da serra, o caminho vira uma típica estrada de fazenda, com pedras soltas, erosões que aparecem do nada e pequenas subidas com suas irmãs, as descidas. Mas como toda estrada de fazenda, sempre tem alguns lugarejos no meio do caminho com botecos e povo pra prosear. Acho que era um domingo, pois encontrei uma turma batendo papo no primeiro bar que fica junto a uma pousada de peregrino. Aproveitei pra comer o resto de pizza da noite anterior com algo gelado. Nessa parada descobri que podia cortar a última subida no estilo penitência antes de chegar à cidade, bastava seguir a direita depois do povoado da Barra. Nesse momento até neguei sair do caminho para evitar uma subida, mas ao chegar na Barra, encontrei uma turma disputando um campeonato de bocha. Parei pra assistir e aí a tentação em deixar a penitência pra depois falou mais alto. Confirmei com mais um velhinho a possibilidade de contornar o morro e fui. Passei por São João do Mato Dentro e encontrei novamente as setas do caminho mais à frente antes de chegar, no fim da tarde, a Ouro Fino.
Acordei com a sensação de que estava enrolando pelo caminho. Por isso levantei com pique para fazer um dia mais esticado e dar uma adiantada nos passos do tabuleiro do meu mapa. Saí de Ouro Fino cedo, o céu pela primeira vez estava nublado e o clima mais fresco. Imprimi um ritmo bom até avistar numa descida um senhor de chapéu com sua magrela motorizada e uma cordinha na mão. Ele rodeava sua motinho parecendo procurar algo. Parei para ver se estava tudo bem e claro que não estava. O cabo da embreagem tinha quebrado e a bike tinha ficado engatada e com a roda travada. Ele estava a uns 300 metros do fim da subida e depois era só descida até a cidade. Bastava soltar pra empurrar morro acima que tudo estava resolvido. A cordinha era para tentar amarrar a alavanca da embreagem na posição certa. Quando vi o cabo quebrado, lamentei que dessa vez não tivesse nenhum reserva comigo. Sendo uma viagem pelo interior de SP, a gente dispensa muita coisa porque sabe que tem assistência nas cidades. Ele era um típico caipira, muito simples e meio sem dentes, só faltava o cigarro de palha. E claro estava meio perdido com a coisa. Para testar se ia soltar mesmo, segurei a alavanca e disse pra ele empurrar a bike. E não é que a alavanca ficou na posição de neutro. Nem precisou amarrar. O tiozinho só faltou dar pulos de alívio. Seu plano era soltar na banguela para fazer a bike engatar e acelerar fundo morro abaixo. Perdi uns quinze minutos nisso, mas ganhei o dia.
Ao passar por Inconfidentes, aproveitei que era cedo e parei para um cafezinho numa padaria. Já vi que ia atrasar tudo mesmo, então por que deixar passar mais uma chance de ver mais coisas? Depois foi o almoço em Borda da Mata. Mas este eu deveria ter trocado por um lanche mais leve pois pra deixar os limites do município a coisa é feia. Uma serra longa, daquelas que você não vê o fim e onde cada curva virada é um teste de paciência. Isso porque já era a tarde e a secura da semana pegava forte. A umidade relativa girou em torno de 40% por toda a semana. Depois de cruzar o limite da cidade para Tocos de Moji, foi ladeira abaixo por um bom tempo até a coisa enrugar de novo e virar tobogã. Chegando à cidade, placas de advertência sobre o perigo das descidas foram aparecendo. Eram descidas tensas no estilo Andradas, mas menores.
Tocos de Moji só veio a saber o que é turismo com a implantação do Caminho, hotel não existe até hoje, apenas uma hospedaria no estilo peregrino rústico e pousadas em edículas de moradores que estão mudando de vida com a nova atividade. Foi numa dessas que fiquei.
Mesmo com uma boa noite de sono, no dia seguinte me senti pesado. Depois de dois dias com serras fortes pelo caminho amanheci devagar novamente. Nem mesmo a rampa de 500 metros pra sair da cidade conseguiu esquentar pra valer. De Tocos a Estiva só há uma serra mais proeminente, daquelas que o pessoal coloca calçamento no topo das passagens dos morrinhos pra carro não deslizar. Mas negociei bem as passagens e a manhã rendeu bem. Cheguei a Estiva pouco antes do meio dia e mesmo assim a canseira já estava grande. Como já tinha quebrado vários dias da viagem, um a mais não ia fazer muita diferença, então aproveitei que a pousada por lá é das boas e tirei a tarde de folga. No fim do dia apelei pro açaí da praça para recompor as energias para o dia seguinte, pois precisaria cumprir o programado para chegar ao pé da serra de Luminosa em dois dias para subir a Mantiqueira pela manhã.
A primeira parte do plano era chegar a Paraisópolis partindo de Estiva e foi trabalho fácil. Consolação fica no meio do caminho e deu quase pra tomar um segundo café da manhã por lá com o ritmo que fiz. A segunda perna até Paraisópolis tem mais uma serrinha no meio e uma tentação pela esquerda. Uma estrada asfaltada com muito pouco trânsito é algo difícil de resistir para quem está há vários dias na estrada. Ainda mais porque os três primeiros quilômetros é por ela mesmo e sair pra terra novamente até dói. Na cidade, a pousada fica ao lado da igreja. Isso, aliado à mania de padre botar igrejas nos topos dos morros, vai te fazer subir mais uma rampa antes de poder descansar. Mesmo assim cheguei por lá a tempo de pegar o restaurante aberto para o almoço.
O próximo passo antes de enfrentar a travessia para Campos do Jordão era chegar o mais perto possível da serra para poder enfrentar a encrenca logo cedo. Para isso teria que pernoitar um pouco depois de Luminosa, um distrito que fica do outro lado do morro a frente de Paraisópolis, só pra variar. Mesmo subindo o pedal foi agradável, a estrada faz um zig-zag sobre a fronteira entre São Paulo e Minas. A parada para algo gelado é em São Paulo e no fim do dia voltamos a Minas. Depois de algumas horas nesse vai e vem desemboquei no alto de um morro com uma vista maravilhosa da cidade e do vale ao seu redor. E o melhor, era só descida até lá.
Mantiqueira
Fui recebido em Luminosa por um cachorro na praça central que parecia querer falar comigo. O lugar é uma tranquilidade só e os moradores parecem já ter se acostumados com os ETs que descem a serra de bicicleta. Pensei em tomar um sorvete, e já estava quase parando quando avistei uma padaria do outro lado da praça com um coxinha que saltava do balcão de salgados. Desisti do sorvete e fiz bem, estava deliciosa, ou melhor, deliciosas pois a gula me fez comer duas. Completei tudo com um refrigerante de abacaxi. Maravilha de almoço. Nessa parada fiquei sabendo que o cão que me recebeu faz isso com todas as pessoas de fora. Ele ia à missa com a dona todos os domingos e desde que ela morreu, vai só à igreja. E que não tentem tirá-lo de lá, a coisa complica. Acho que ele recebe todos os estranhos para perguntar se viram sua dona por aí. Só pode ser.
Mas tinha que continuar, quanto mais perto do pé da subida eu dormisse, melhor no dia seguinte. Esse foi o único trecho que planejei a viagem toda, o resto foi seguir setas. Tomei o rumo dos canaviais e em menos de uma hora fiz os cinco quilômetros até a pousada da Dona Inez que está no ponto certo para a subida. A vista no fim do dia lá do alto foi genial, ainda mais acompanhada por um suco de limão galego pra reidratar. Ela fez uns dois litros e não sobrou gota para contar a história.
O bom de dormir num sítio é que mesmo acordando as 4 da madrugada tem café pronto na mesa. Foi nessa hora que saí em companhia de dois peregrinos a pé. Como ia ter que empurrar mesmo, nada melhor ir acompanhado serra acima. Saímos antes das cinco com tudo escuro. Ainda bem que Dona Inez nos recomendou para não passar nenhuma cerca de arame.
A estávamos errando o caminho. Voltamos um trecho e passei a iluminar para todos os lados. Achei a seta numa estaca a 30 centímetros do chão indicando a subida. A partir daí foram uns 3 km empurrando para vencer cerca de 300 metros de altitude. Os outros 200 foram mais leves e distribuídos em mais uns 5 km. No meio do caminho fiquei para trás dos meus amigos porque parei par fazer uma foto de Luminosa com os primeiros raios de sol marcando as montanhas ao redor. A serração represada pelos morros dava um toque especial. Sair cedo sempre rende boas fotos e uma subida de serra mais tranquila. Quando o dia já estava claro parei novamente para um reforço no café da manhã e para aproveitar a última vista do vale de Luminosa.
Pouco antes das nove já estava rompendo no asfalto que liga Campos de Jordão a São Bento do Sapucaí. Ainda tinha um pouco para subir, mas o pedal já estava rendendo bem mais e pouco depois encontrei meus companheiros de subida novamente. A altitude nesse ponto era cerca de 1800 metros. Para chegar a Campos ainda iria descer um pouco para voltar a subir novamente. Os cerca de vinte quilômetros que faltavam foram tranquilos até demais, tanto que cheguei na cidade antes do meio dia.
Passar por Campos para mim foi um choque. Depois de dias curtindo a vida calma do interior de Minas, pedalar com dezenas de carros ao lado não foi nada agradável. Eu havia planejado ficar na cidade, mas depois de um café, toquei avante. Tinha comida no alforje e decidi só parar perto de Pindamonhangaba. Segui as setas e fiz meu almoço no mirante ....... O fim da estrada me levou a atravessar o trilho do trem pela segunda vez, mas dessa vez havia setas indicando seguir pelos trilhos para a esquerda. De bike isso é impossível. Atravessei para ver se não era engano e as amarelinhas sumiram, explorei o trilho por um trecho para ver se não havia uma estrada escondida pouco abaixo e nada. Passei a perguntar para quem estava perto e ninguém sequer tinha ouvido falar do Caminho da Fe. Mudei a pergunta dizendo meu destino, ai obtive uma indicação para descer pela antiga estrada entre Taubaté e Campos. Segui mas com a sensação de que estava errado. Cheguei em Piracuama num piscar de olhos. O caminho era outro, como descobri na pousada, mas foi uma delicia fazer cerca de vinte quilômetros em meia hora. Agora só restavam mais cinquenta no plano e sobre asfalto.
No ultimo dia bate uma vontade de chegar logo. A previsão para o trecho era de três horas pedalando. Fiz com meia hora de atraso: mais uma padoca no meio do caminho. Esse trecho é um pouco anticlímax em relação aos locais visitados antes da Mantiqueira, mas acho que para quem faz a pé é pior ainda. A paisagem não ajuda e a rota passa à margem das cidades. Portanto era pedalar para chegar.
Mesmo não sendo religioso e estar pedalando praticamente no quintal de casa, a gente sente algo diferente quando está perto de finalizar um caminho como esse. Comecei a lembrar de lugares por onde passei, pessoas que vi e com quem conversei, perrengues em forma de subidas, e por aí vai. A sensação e de missão cumprida e de renovação de forças para tocar a vida até a próxima pedalada de duas semanas.
Glossário mineiro de subidas
Subida – Para ser considerado subida, a rampa precisa ter no mínimo 500 metros de extensão e 100 metros de ascensão.
Serra – Quando eles falam em serra é porque a subida é mais séria. Na prática seriam duas subidas (como descrito acima) consecutivas
Peito de pombo – São pequenas subidas de menos de 100 metros e com pouca elevação, coisa de 10 metros de ascensão
Baixadão – Ou “lá é tudo baixada”. Quando vc ouvir isso, não se anime muito. Na prática estará perto do pé de morros, mas terá inúmeros peitos de pombos para escalar.
Plano - Isso não existe em Minas.
Subida – Para ser considerado subida, a rampa precisa ter no mínimo 500 metros de extensão e 100 metros de ascensão.
Serra – Quando eles falam em serra é porque a subida é mais séria. Na prática seriam duas subidas (como descrito acima) consecutivas
Peito de pombo – São pequenas subidas de menos de 100 metros e com pouca elevação, coisa de 10 metros de ascensão
Baixadão – Ou “lá é tudo baixada”. Quando vc ouvir isso, não se anime muito. Na prática estará perto do pé de morros, mas terá inúmeros peitos de pombos para escalar.
Plano - Isso não existe em Minas.
http://ondepedalar.com/

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